quinta-feira, 9 de setembro de 2010

"Não ligue se ninguém vê as boas obras que você faz, pois o sol ao nascer dá um belo espetáculo mas a platéia continua dormindo."

Enviado por Reinaldo
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"Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento dos fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobresaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar e dormir pesado, sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e ler sobre guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos, e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceita ler todo dia sobre a guerra, os números, a longa duração, etc. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar tudo que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que se paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez mais pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata de produtos. A gente se acostuma à poluição. À lua artificial de ligeiro temor. Ao choque que os olhos levam com a luz natural, às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir os passarinhos, a não colher as frutas do pé, e a não ter sequer uma planta.. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado. A gente se acostuma, para não se relar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas sangrentas, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida, que aos poucos se gasta, e que, de tanto se acostumar, se perde por si mesma.

Desconhecido

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